# Groenlândia, OTAN e o colapso silencioso da ordem atlântica
## INTRODUÇÃO
A Groenlândia deixou de ser um território remoto para se tornar o epicentro de uma crise que expõe as fraturas profundas da aliança atlântica. Quando o presidente americano Donald Trump retomou publicamente suas intenções de adquirir a ilha ártica — e se recusou a descartar o uso de força militar para tanto — não estava simplesmente fazendo provocações diplomáticas[1][4]. A reação em cascata revelou algo mais grave: a ordem de segurança construída após a Segunda Guerra Mundial está sendo questionada por um de seus pilares fundadores. A Dinamarca entrou em “modo de crise total”[1], enquanto a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, alertou que um ataque americano ao território poderia significar o fim da OTAN[3][4]. O que começou como uma negociação comercial absurda transformou-se no sintoma mais avançado da erosão do sistema atlântico.
## DESENVOLVIMENTO
A Groenlândia, território autônomo dinamarquês com apenas 57 mil habitantes[4], ganhou importância estratégica renovada devido à sua localização no Ártico e à abertura de novas rotas e recursos com o derretimento do gelo[5]. Trump justificou seu interesse em termos de “segurança nacional”, afirmando que “precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional, e a Dinamarca não vai conseguir dar conta disso”[1]. A Casa Branca confirmou que o presidente “discute ativamente” a possibilidade de compra[4] e nomeou um enviado especial para a região — o governador republicano da Louisiana, Jeff Landry, cuja nomeação foi condenada tanto por Copenhague quanto por Nuuk[1].
A resposta europeia foi imediata e severa. Frederiksen declarou que “não faz absolutamente nenhum sentido falar sobre a necessidade de os Estados Unidos assumirem a Groenlândia”[1][5], e o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, foi direto: “Já chega! Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação”[3]. França e Alemanha trataram o tema como “fator de instabilidade nas relações transatlânticas”[2]. A crise escalou tanto que os ministros das Relações Exteriores dinamarquês e groenlandês solicitaram formalmente uma reunião com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que confirmou o encontro para a semana seguinte[2]. A Europa, simultaneamente, começou a preparar planos contingenciais caso as ameaças americanas se materializem[3].
## ANÁLISE
Esta crise não é um desvio retórico de Trump, mas a manifestação de uma ruptura estrutural. Quando um membro fundador da OTAN — os EUA — ameaça usar força contra outro membro fundador — a Dinamarca — sobre um território que ambos reconhecem como soberano dinamarquês, o sistema inteiro se desmorona[3][4]. A Dinamarca, que participou da invasão do Iraque em 2003 como aliada leal, agora enfrenta a perspectiva de ser tratada como adversária[4]. O alerta de Frederiksen sobre o fim da OTAN não é hipérbole diplomática: é o reconhecimento de que a garantia coletiva de segurança perdeu credibilidade quando um membro a viola abertamente. A questão não é mais sobre Groenlândia, mas sobre se a ordem atlântica ainda existe.
## CONCLUSÃO
A crise da Groenlândia marca o ponto de não retorno na erosão da ordem atlântica do pós-guerra. A OTAN, que sobreviveu à Guerra Fria e se expandiu, agora enfrenta seu desafio existencial não de adversários externos, mas de seu próprio guardião. Enquanto europeus discutem planos de contingência[3] e americanos negociam anexações, o sistema de segurança coletiva que garantiu a paz europeia por 80 anos está sendo reescrito em tempo real. O que acontecer na próxima semana, quando Rubio se reunir com dinamarqueses e groenlandeses[2], dirá se ainda há espaço para diplomacia ou se a ordem atlântica já sucumbiu silenciosamente.
## ANÁLISE COMPLEMENTAR
A disputa pela **Groenlândia** explicita a combinação de crise estratégica, jurídica e política dentro da **ordem atlântica** e da própria **OTAN**.
1. **Dados/estatísticas**
– A Groenlândia tem cerca de **56 mil habitantes** e status de território semiautônomo do Reino da Dinamarca.[6]
– Desde 1867, Washington tentou diversas vezes **comprar** ou anexar o território, retomando a pressão em 2019 e novamente no atual mandato de Trump.[5]
2. **Perspectivas diferentes**
– **EUA**: veem a ilha como peça-chave para defesa antimísseis e para conter China e Rússia nas rotas do Ártico, enquadrando o tema como “segurança nacional”.[3][5][6]
– **Dinamarca/Groenlândia**: falam em violação de soberania, rejeitam venda ou anexação e classificam as ameaças como “rudes” e “absurdas”.[1][3][5]
– **Europa continental**: França, Alemanha e outros tratam o episódio como risco direto à coesão transatlântic